À mulher que estava no ponto do Campo Grande:
Áudio do texto lido pelo escritor... 🎧
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Era início de noite e eu sabia de onde
vinha, tinha pegado o ônibus na Graça, no ponto do lado da subida do viaduto da
Gabriela, quis dar uma volta de ônibus pela orla da Barra, ver o pôr do sol
desde a janela, e também me sentar para curtir o prometido ônibus de
ar-condicionado. Foi uma boa decisão, sem saber tinha pegado o ônibus certo.
Depois de ver o sol, já posto, apenas um gradiente tímido no horizonte, já que
o tempo estava nublado, voltei ao viaduto, e vi a multidão entrar no coletivo a
cada ponto até o Campo Grande.
Foi quando
chegou a tua vez.
No ponto do
Teatro Castro Alves estava você, mulher. Com os cabelos cacheados, presos, de
blusa vermelha e calças jeans, a pele parda brilhando no princípio da noite.
Estava segurando algo nas mãos, creio que tenha sido um acarajé, era o que me
parecia — o lanche da noite. Vi teu rosto e imediatamente fui tomado por ele,
pois é fácil para mim encontrar beleza em multidões. No entanto, não apenas a
tua beleza era arrebatadora, mas o fato de que teu rosto era familiar, como se
já o tivesse visto outras vezes na vida. Não esqueço rostos.
Por causa da
multidão, não sabia se iria se aventurar a entrar no ônibus em que eu estava,
entretanto fui surpreendido, não sei se era teu desejo de aventura, ou a
pressa, ou quem sabe a incerteza de que viria outro ônibus em tempo hábil, mais
vazio do que aquele ou mais cheio, se é que era possível. Só sei que entraste
no ônibus e não passaste na catraca. Não havia como. O ônibus saiu do ponto sob
os xingamentos dos que estavam dentro “tá socado aqui, velho, vamos sentar no
teto?” Eu fiquei em silêncio. Estava tentando encontrar teu rosto em minha
mente, de onde conhecia traços tão belos. Um rosto que, sem nenhuma intenção,
me transmitia algo; algo mais do que só beleza, uma espécie de sabedoria, de um
espírito criativo, inquieto como de uma artista, contudo sereno. Algo raro num
ônibus apinhado. Seguimos pela Av. Sete entrando pelo Politeama, e enfim
chegamos na Lapa, onde a multidão começou a descer.
Pensei em
falar-te algo, quiçá um “olá, tudo bem?”, mas como poderia fazê-lo, uma vez que
não me conheces, não sabias nem sequer o meu nome, nem que ando sobre a face da
Terra?
Apenas fiquei a
observar tua descida na Lapa, logo após a multidão desembarcar, ainda comendo
teu acarajé — não mais tão quente certamente —, e apreciar tua beleza em
cachos castanhos subir a escada rolante para o primeiro andar da estação, e
dizer-te aqui, caso teus belos olhos de mulher encontrem estas letras um dia,
que foi agradável vê-la naquela noite, ver tua beleza se destacar em meio a
multidão, como obra de arte cara, preciosa; me trazendo boas sensações, déjà
vu de coisas boas. Fazendo daquela noite sem lua, mais bela, iluminada. Um
presente na minha volta para casa.
Obrigado,
mulher.
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