Reminiscências completas

 Áudio do texto lido pelo escritor... 🎧


Era um domingo de 2019, chovia e eu estava doente. Quando acordei, não imaginei que faria uma viagem completa no turno da tarde. Tenho regras contra sair doente, ainda mais na chuva. Mas rompi com todas elas para ir a um refúgio, um velho refúgio na praça Gago Coutinho. Não, não era a primeira vez, e não sabia que o que me reservaria a vida cinco anos depois.

No tal domingo, barracas estavam sendo montadas na rua, cordões de luzes amarelas sendo colocados nos postes, sinal de festa, lavagem da rua em pleno dia de domingo. Detesto festas de rua, som alto, música brega e brigas. O que esperar de gente conflitada enchendo os canos? Senhora minha mãe não quis esperar nada. Olhou a balbúrdia na porta, virou-se, pegou uma velha arma metafísica, olhou para mim, deitado no sofá, e atirou-me à queima-roupa a coisa mais inesperada do ano:

— Vamos ao aeroporto!

— O quê?

— Ao aeroporto, faz anos que não vamos lá. — respondeu. E, de fato, faziam anos. A última vez tinha sido em 2014. — Não quero ficar aqui com o som alto e a multidão que vem pra cá... Se você não for, eu irei — completou.

Baleado no coração, não objetei; levantei, peguei minha roupa e decidi ir, com toda a tosse de uma gripe assustadora. 

Ir ao aeroporto era uma velha tradição sazonal de família, desde o nascimento. Contudo uma loucura só é boa quando compartilhada, não há nada melhor do que ser louco em conjunto. Senhora minha mãe carregou sua velha arma com mais uma bala de prata, discou o telefone, minha prima atendeu, apenas o bom-dia costumeiro e mais um disparo seco, com a precisão dum franco-atirador. Atingida em cheio, concordou sem objetar, arrumou a prole, três crianças: duas que andavam e uma de braço, e em uma hora e meia depois nos encontramos na Rua Direta, debaixo da garoa. O Lapa demorava, pirraçava a chegada. Então, decidimos ir para Estação Pirajá e de lá pegar o metrô. Uma loucura, de fato, mais uma, decidida quando o ônibus despontou no horizonte nebuloso da rua. Entramos e partimos, num ronco macio de um motor que não se fabrica mais, que está virando raridade na cidade.

Chegando no Largo do Tanque, mais uma surpresa. Torcedores tricolores subindo aos montes no coletivo. Então me dei conta de que era domingo de jogo. Não saio em domingo de jogo, nem senhora minha mãe. Entretanto, surpreendentemente, nada fiz. Quiçá já tivesse me conformado com todas as loucuras do dia. 

Chegando na estação, lembrei-me de minha infância, de quando ia lá com meu pai, na velha estação, ainda amarela, o metrô era um sonho distante. Comecei a me emocionar, andando pela estação reformada, agora branca, painéis de led e banheiros mais limpos. De mãos dadas com um dos pequenos, subi a escada rolante e pegamos metrô retornando para o acesso norte, linha dois, e aeroporto. O tempo agora só nublado. Pegamos o transfer, que na época não nos permitia ver nada do lado de fora. Descemos dentro do aeroporto.

 

✻✻✻

 

O aeroporto não era mais o mesmo, foi reformado. Na última vez em que tinha estado lá, seis anos antes, foi na assunção da concessionária. As reformas estavam começando. Já existia o edifício garagem já com os dois andares atuais, que na minha infância tinha apenas um, e também o ponto de ônibus, na ponta do losango do edifício, de onde vinham os coletivos nos apanhar, alguns faziam hora no aeroporto, outros não, como o Estação Mussurunga X Aeroporto, via Jardim das Margaridas. Entramos no saguão, subimos as escadas rolantes para o primeiro andar, senti o cheiro da comida cara da praça de alimentação e fomos para a rampa de saída. E de repente, volto aos meus dias de criança, nos tempos da Infraero. Lembrei de quando não havia cerca de proteção na rampa. Ficavam lá os gelos baianos, fazendo uma aérea reservada para observação, para os que ia chorar suas despedidas, sorrir as chegadas, ou somente contemplar as operações, como nós. Recordei-me das brincadeiras, dos sons, dos cheiros de combustível, do corre-corre pueril, das histórias vividas, como a do meu primo que chegou lá feliz e saiu com febre, finalmente ficando quieto. Do dia em que fui ver a réplica do 14bis. Reminiscências completas de minha criança interior, que sinto estar conectada ao aeroporto. Lá é quando ela ressurge, travessa, e me faz ser menino de novo, faz retornar os sorrisos em meu rosto.

Enquanto isso, as crianças conosco olhavam estarrecidas, tanto quando eu quando menino, os aviões. Mesmo já adulto, não entendia de aviação. Não diferenciava Boeing de Airbus, não sabia o que era um Embraer, um ATR. Nem a aviação nem a escrita estavam presentes em minha vida, ainda que a escrita estivesse a meses de tomar minha alma. Então a chuva caiu. Retornamos ao saguão, para tentar ir ao segundo andar, onde anos antes existia uma janela de observação com vista para a pista. Chegando lá, descobri que tinha se tornado o raio-x. Mal sabia eu que seis anos depois entraria ali. Retornamos. As crianças queriam correr no saguão do aeroporto, as segurei, não queria que se acidentassem, mas logo vi que estava impedindo que elas fossem crianças, e não podia. Apenas delimitei um espaço para que não causassem acidentes.

Um pouco depois de iniciar a viagem de volta, me encontrei com o pôr do sol do aeroporto, no seu princípio, abrindo uma brecha dourada nas nuvens, antes do tempo fechar de vez. E lá de dentro, surgiu um A320 da Avianca na curta final. Um dos poucos aviões que vimos naquele domingo. Eu, já curado da gripe, não mais tossia. Pegamos o metrô, descemos no acesso norte e encontramos a multidão tricolor voltando para casa depois do jogo. Não me abalei, estava em paz... Fomos para a Lapa, pegamos o ônibus e, ao chegar em casa, o som alto não me perturbou, a multidão não me assustou, só me apressei em entrar.

Tomei um banho e fui dormir, sem saber o que futuro traria.

 

2025.

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