À mulher cuja beleza me entristece:
Áudio do
texto lido pelo escritor... 🎧
Não, não é a tua beleza que me entristece. Ela
é gloriosa, plena e absoluta. No entanto, o fato de não alcançá-la é que me
tira as forças. Não a alcançaria em um milhão de anos, nem na eternidade. Por
isso me mantenho ao teu lado, porém num esforço exaustivo para não desejá-la
ardentemente, ainda que seja quase impossível sempre que vejo teu rosto em
frente aos meus olhos, ou nos meus sonhos.
És tão bela que meu coração dói. Dói por ver
tua beleza com estes meus olhos. Quem dera fossem outros olhos, mais
brilhantes, mais vivos, mais belos. E não, não clamo neste texto de paixão,
pois não sei se quero que me olhes, ainda que não acredite ser possível tamanho
movimento do universo. Anseio ser modesto, não alimento a ideia de tê-la um
dia, pois não creio numa bondade tão grande da vida; não estou e talvez não
esteja à altura de tamanha dádiva Divina — a tua dádiva. Contenho-me e
recolho-me ao limbo de minha miséria.
Apenas espero não cansar de me conter um dia,
e que não queira — mesmo sendo tentadora a ideia — atirar-me de um penhasco com
destino ao teu coração e teus braços, pois sei deveras que o chão e a morte me
aguardariam, como tantas vezes me ocorreu, tendo o Altíssimo me trazido de
volta à vida. Não posso abusar da bondade de Deus, já o tenho feito em
demasia.
Por isso, por tudo isso, tua beleza me
entristece. Lembra-me de minha miséria, meu limbo e pequenez, de minha luta
atroz travada nas trincheiras da minha alma.
Mas é beleza tão bela a tua, que é
irresistível aos olhos. Então, atravesso o inferno para que, ainda que por um
triz de tempo, ao vê-la, me sinta homem, me sinta humano.

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