À mulher da clínica de olhos:
Áudio do texto lido pelo escritor... 🎧
..
É bom ter olhos para te ver, mulher. Às uma e
meia da tarde de um dia nublado, mas quente de outono. Os meus olhos que viram
a rua, os pedaços de céu azul entre as muitas nuvens, agora te veem. Veem o teu
corpo coberto de jeans, do casaco à calça. Veem a tua pele de caramelo, teus
cabelos cacheados e fartos, amarrados no alto da tua cabeça, teu rosto jovem
como de uma menina, teu pescoço alongado e gracioso — há muito tempo não vejo
um tão belo. Meus olhos veem teus olhos de âmbar.
Meus ouvidos, que ouviram o som do vento, dos
poucos pássaros na cidade, o ronco dos motores dos carros e as vozes de várias
pessoas na clínica, agora te ouvem. Ouvem a tua voz doce, como há muito não
ouvia. Tua voz lembra a voz da mulher que amei, a qual também amava a voz, uma
voz que ainda me causa arrepios.
A tua beleza é uma que não se espera encontrar
numa clínica, um lugar onde poucos gostam de ir, mas torna o ambiente mais
agradável, pelo menos para mim. A tua beleza natural de mulher me fascinou.
Teus olhos não me viram. Porém, agora que vou embora, desejei que eles tivessem
me visto, por algum motivo que ainda não sei explicar.
Espero que um dia, meus olhos te vejam
novamente.

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