À mulher na porta do Shopping:

Áudio do texto lido pelo escritor... 🎧


 

Era um fim de tarde e subia a Rua Direta, de frente para o pôr do sol, o espetáculo de céu dourado, quando desviei meu caminho para dentro do Shopping, e na porta estava você, mulher. No teu salto alto e calças sociais, uma blusa verde de cetim e os cabelos ondulados pretos que reluziam no início da noite. 

Vejo-te desde a tenra idade, desde quando frequento este Shopping de bairro; mais para ir à lotérica do que para comprar qualquer coisa cara. Vejo-te bela desde então, desde antes de o meu peito arder pelas paixões do amor. Não por ti, já que, quando eu era apenas um garoto, já eras mulher madura, sabedora da vida, bela em si mesma; assim como contínuas sendo hoje, depois de eu já ter atingido a idade adulta, depois das paixões me rasgarem o peito e abri-lo em feridas e dores. Espero que o amor lhe tenha sido mais gentil. Lhe tenha sido belo tal qual a beleza que carregas consigo. 

Agora que saí do Shopping, vou embora dando as costas para o gradiente dourado no horizonte, que pouco a pouco vai sendo engolido pela escuridão que vem do Leste. Deixo-te na porta do shopping a se distanciar de mim, sem nem fazer ideia de que entrastes no meu pensamento. Sem nem ter ideia de quem sou, de que sou aquele garoto que sempre te olhou e nunca disse nada. Te admirou silenciosamente. 

E hoje, em palavras silenciosas de um cronista, teço-te este texto.

 


Comentários

Postagens mais visitadas