À mulher nas obras sociais:
Áudio do
texto lido pelo escritor... 🎧
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Sexta-feira, terceiro dia do ano. Vim retirar meu
sangue, me cuidar para tentar viver mais um pouco, adiar meu cadáver.
Acordei cedo, mais tarde do que
devia, mas aqui cheguei, de onde escrevo, dando de cara com uma multidão nas
obras sociais, as pessoas de várias espécies, a profusão de rostos, cores,
odores, gente na mais pura acepção do termo.
Sentei-me no banco de pedra,
aguardando meu nome ser estampado na tela, e me render às agulhas e ampolas,
sentir e ver meu sangue esvair-se por um bem maior. Sei, de fato, que me
delongo, mas preciso, qual cronista, preparar o terreno, explicar a razão de
estar aqui numa manhã tórrida.
Quando olhei a rua, contemplei
os carros, e do portão grande, verde, no lado oposto da rua, vi a tua silhueta
surgir, a razão destas palavras existirem nestas folhas. Plácida, bela com a
tua farda azul, belo colete e calças, saltos baixos, os cachos pretos eram a
tua coroa de beleza, a emoldurar teu belo rosto jovem. A síntese da beleza
feminina a atravessar a Av. Dendezeiros e entrar pelo portão 03 escapando da
minha vista. Eu fiquei quieto, claro, pra que importuná-la, ainda que a
conheça? Não... É virtude do homem saber admirar em silêncio, sempre digo,
mesmo ao admirar uma mulher que saiba da sua existência na terra. Para que
lembrá-la disso? Já cometi no passado o erro de falar demais, hoje valorizo
cada vez mais o silêncio e a palavra bem pensada. Falo com letras.
Contudo, o acaso, o fortuito da
vida me deu a chance de vê-la mais duas vezes, e me deu o objetivo nobre, uma
preocupação genuína para que lhe dirigisse a palavra, sendo recebido pela tua
calma e doce voz, capaz de acalmar uma alma ansiosa. Então, vi teu sorriso belo
adornar teu rosto claro, a pele fina feito seda. Agradável aos olhos.
És a própria beleza capaz de
abrilhantar o dia e refrescar o tempo, pois percebi que depois de falar contigo
e admirar tua formosura, o clima abrandou e o sol passou a ser mais fresco, e o
vento soprou mais leve. Gostaria de ter esse poder.
Quando voltei para casa, pelas
quietas ruas do Roma, pensei em ti, e estas letras começaram a surgir em minha
mente, junto com um sentimento de nostalgia, lembrando de quando fazia esses
caminhos na infância, de quando costumava correr muito, correndo até da morte
certa vez, minha mãe fez questão de me lembrar.
Hoje já não corro mais, muito
pelo contrário, um dia já tive medo até de andar. Enfim, eis os medos que a
vida nos dá, e temos que lidar e lutar. Quem me dera correr novamente. Quiçá
corresse para ti.
Mas não.

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